O Brasil não está preparado para eleger um presidente negro, diz Zulu Araújo

Publicado: 17 de novembro de 2009 em Roda Viva

Roda Viva | Tv Cultura – Entrevistas |

Um dos mais conceituados programas de entrevista da televisão brasileira, o Roda acompanha de perto os principais fatos políticos, sociais, econômicos, esportivos, culturais do Brasil e internacionais.


O Brasil não está preparado para eleger um presidente negro, diz Zulu Araújo no Roda Viva

Dirigente da Fundação Cultural Palmares afirma que senadora Marina Silva terá dificuldades na campanha eleitoral de 2010, mas que seria um grande avanço para o país ter uma líder mulher e negra

Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares – Ministério da Cultura, em entrevista ao Roda Viva, diz que o Brasil não está preparado para eleger um presidente negro, como fez os Estados Unidos com Barack Obama. Ressalta ainda que, lamentavelmente, temos uma resistência forte da sociedade brasileira para a inclusão do povo negro. “Isso se deve, em grande parte, à nossa história. Foram 400 anos de escravidão e 120 posteriores, nos quais não foram adotadas medidas corretas para promover a igualdade e a oportunidade”.

Ao ser questionado, então, se a senadora Marina Silva não teria chances de chegar à presidência por ser negra, ele diz acreditar que ela terá dificuldades na campanha eleitoral de 2010. “A Marina Silva, sem dúvida, vai enfrentar dificuldades bem maiores que um euro-descendente. Mas o Brasil é um país surpreendente e seria um avanço pelo fato dela ser mulher e negra”.

Durante a entrevista, Zulu também fala sobre as cotas raciais nas universidades e afirma que a critica que se faz a essa política pública é sinal de que a medida deu certo. Segundo ele, não há nenhum registro de que a qualidade de ensino caiu nas universidades por conta das cotas e nem que isso gerou desafetos entre negros e brancos na sala de aula. “Se não se adotar mecanismos de aceleramento da inclusão dos negros nas universidades, nós teremos daqui a 100 anos a mesma realidade que temos hoje”.

O presidente ainda completa: “eles [os negros que hoje estão nas universidades pelo sistema de cotas] poderão ser juizes, empresários. Sem o processo educacional isso ficaria muito mais difícil. Não podemos desenvolver o Brasil sem que haja inclusão dos negros na universidade. Eles precisam ter um tratamento diferenciado, por conta da questão histórica”.

Zulu Araújo também afirma que o presidente Lula tirou 21 milhões de afro-descendentes da pobreza extrema. “O governo do qual eu faço parte, com muito orgulho, conseguiu retirar da pobreza extrema 30 milhões de brasileiros. Desses, 70% devem ser afro-descendentes. Isso é bom para o Brasil. Gerou consumo e contribuiu para que tivéssemos saído da marola mais rapidamente”.

O entrevistado é indagado sobre a existência da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e responde: “a criação da SEPPIR é o entendimento que o Estado brasileiro tem que sem política pública não será possível vencer essa desigualdade provocada pelo processo escravista no Brasil. Então, é positivo”.

O presidente da Fundação Cultural Palmares ainda ressalta que a igualdade é boa para a sociedade brasileira e que combater o racismo não pode ser apenas reagir. “Nós temos que ser pró-ativos. E nesse sentido a Palmares cumpriu esse papel. Ou seja, mostrar que no plano da cultura, promover a igualdade através das manifestações culturais de origens negras é bom para todos, não só para a comunidade negra, mas para toda a sociedade brasileira”.

No programa, Araújo também comenta sobre o negro e a religião. Ele diz que a Fundação Cultural Palmares não compartilha da ideia de que toda a comunidade negra tem que pertencer às religiões de natureza africana. “A liberdade de culto é um direito constitucional de qualquer cidadão brasileiro. O negro pode ser ateu, espírita, católico, do candomblé, da igreja neopentecostal… o que não pode é ele ser objeto de descriminação porque pratica determinada religião”.

Com apresentação de Heródoto Barbeiro, o programa é exibido as segundas às 22h, na TV Cultura, sem qualquer corte ou edição.

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