Globo Reporter: Animais do cerrado lutam para sobreviver

Publicado: 13 de novembro de 2009 em Globo, Globo Reporter, Jornalismo

Globo Repórter | 13/11 sex 22h00 | Globo – Jornalismo

Uma equipe própria de repórteres que aprofunda o conhecimento do público sobre assuntos polêmicos ou de interesse geral.


Animais do cerrado lutam para sobreviver

Sem a vegetação nativa, tamanduás, antas e onças estão acuados e sem alimento.

CLÁUDIA GAIGHER Goiânia (GO)

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Um paraíso perdido, isolado e ameaçado. Viemos descobrir o que é o Cerrado. Quem não é da região custa a perceber o valor e a beleza do ambiente que já cobriu o Brasil Central e hoje desaparece silenciosamente. A vida selvagem corre perigo!

Três onças filhote são que nem crianças: escapam em um piscar de olhos. Elas parecem gatos de estimação, mas são filhotes de onça parda. Chegaram ao Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama (Cetas) porque o cerrado, onde viviam, foi desmatado.

Os filhotes vão crescer em ambiente fechado. Jamais poderão ser soltos na natureza.

Os filhotes do maior carnívoro das Américas devem achar que liberdade é brincar com estranhos que entram em sua jaula.

“Infelizmente, elas estão muito acostumadas com gente, porque foram criadas desde muito bebês aqui. Tivemos que amamentá-las com mamadeira, então, elas ficaram acostumadas com as pessoas”, diz o chefe do Cetas em Goiás, Léo Caetano.

Esse é o destino de muitos animais do cerrado. As pequenas trigêmeas estavam perto de um canavial. “Uma pessoa do Corpo de Bombeiros ouviu os miados e, sem saber se elas estavam com a mãe ou não, trouxe para Cetas”, conta Léo Caetano.

“Parecem gatos de estimação, mas são filhotes de onça-parda. Chegaram aqui porque o cerrado onde viviam foi desmatado. Esses filhotes vão crescer em ambiente fechado. Jamais poderão ser soltos na natureza”, diz Léo Caetano.

O Cetas é o abrigo provisório das maiores vítimas do desmatamento. Difícil é achar um local que receba esses bichos. Só em Goiânia, no centro do Ibama, são sete suçuaranas. Nina cresceu no local. Nem liga para gente estranha dentro da jaula. Mas por que tantos animais presos ou feridos? O problema se repete Brasil afora em toda a região de matas.

As rodovias atravessam áreas rurais onde ainda existem pequenas reservas de cerrado, refúgio de diversos bichos. Mas as matas ficam isoladas. Faltam espaço e comida para os animais, quando eles escapam da área protegida.

“Os animais não sabem onde podem passar por uma rodovia sem serem atropelados. Existem muitos casos de filhotes de tamanduá que foram encontrados no dorso da mãe atropelada que morreu”, conta Léo Caetano.

Foi o que aconteceu com mais um órfão de tamanduá. Uma papa de leite, verduras e frutas substitui o leite materno. O filhotinho de tatu bebe leite em um copinho.

No centro de triagem, chegam por ano pelo menos cem animais atropelados. Um ouriço-caxeiro foi socorrido. Muito ferido, precisou de sedativo para diminuir a dor. Ele quebrou uma pata e foi operado.

“Ele perdeu os espinhos por causa do atropelamento. Esse animal tem alta capacidade de soltar os espinhos. Então, por qualquer coisa, ele perde mesmo. Depois, nascem de novo, já está nascendo”, diz a veterinária Andréa de Moraes.

Em um dia especial, um filhote teve alta no centro de tratamento. De Goiânia, ele vai para uma fazenda afastada da cidade cercada de verde. Nenhum bicho fica preso. As aves que foram resgatadas seriam vendidas por traficantes de animais silvestres.

O quarto da fazenda virou berçário. Carinho e mamadeira para os órfãos do cerrado. Assustado, um filhotinho de paca se esconde embaixo do armário e só sai atraído pela comida. Sempre sobra espaço para mais um sobrevivente.

Um tamanduá-mirim é o mais exibido – sempre aparece para uma visitinha. Já um filhote de ouriço-caixeiro é tímido e se esconde no alto de um pé de amora. Ele também foi atropelado, mas já se recuperou. A estudante de biologia Elizabeth Ferreira Lima, a Beth, está sempre atenta, leva um agradinho antes do almoço.

Um filhote de tamanduá-bandeira ganha companhia na creche. Beth e o marido são apaixonados pela natureza e decidiram transformar a propriedade da família em um lugar seguro para os animais do cerrado.

“Deixamos mais de 50% da área preservada, sem desmatar, para ser um refúgio mesmo dos animais”, conta Beth.

Telmo Alves Lima é bancário e ela, estudante de biologia. Juntos, viraram os “pais adotivos” dos animais que foram salvos pelo pessoal do Ibama.

Telmo descreve o que passava em seu coração quando via um filhote de tamanduá recuperado ser levado para um zoológico. “Acho uma injustiça. Se ele não cometeu crime algum por que seria preso o resto da vida? Acho que soltar é melhor. Por aqui já passaram dez”.

Julie, a filha do caseiro, nem fala direito, mas já se entende com os filhotes. Tão bebezinho, um filhote de tamanduá precisa se sentir seguro e agarra uma oncinha de pelúcia.

“Na natureza, o instinto do animal é ficar agarradinho na mãe. Quando nasce, a mãe já carrega ele no dorso. Por isso a gente coloca o ursinho como a mãe. Fazemos essa adaptação, e ele aceita muito bem”, explica a mãe adotiva.

Os filhotes estão sempre famintos. Um tamanduá é pequeno, mas já tem a língua muito comprida. A mamadeira pode ser um perigo. Na ânsia de mamar, um filhotinho engasgou e engoliu a língua. Parece estranho, mas só sacudindo-o ele pode ser salvo.

Não é nada fácil cuidar de um animal silvestre. Afinal, o lugar deles é na mata, crescendo e aprendendo a viver em liberdade. Mas o que fazer para que esses animais não dependam tanto da ajuda das pessoas?

Não é só soltar os animais na natureza – é preciso ter certeza que eles vão sobreviver. Por isso, uma tela no meio da mata é o último estágio antes da soltura. Os tamanduás ainda recebem alimentos. É preciso andar bem devagar, porque estágio eles estão desacostumados com a presença das pessoas. Em breve, serão soltos e viverão livres.

Difícil é tirar o bicho do cercado. Antes de ganhar a liberdade, uma fêmea com mais de um ano de recebeu um brinco de identificação e uma coleira para emitir ondas de rádio e facilitar o monitoramento. No meio da mata, a fêmea de tamanduá foi finalmente solta. Ela estranhou no começo, tentou reconhecer o ambiente. Precisou de tempo.

Acompanhar o retorno desses animais para a vida selvagem é a pesquisa de Beth na faculdade de biologia. Olhar atento, concentração para ouvir o sinal do rádio em meio aos sons da floresta.

O monitoramento é feito durante um ano, desde a soltura dos tamanduás. No primeiro mês, as pesquisadoras passam horas todos os dias dentro da mata tentando achar o bicho.

“Ela come a papa que usamos no processo de soltura branda. Ela já percebeu nossa presença e não está mais aceitando a presença de humanos. Às vezes fica agressiva e corre atrás das vozes”, explica Beth.

Ela avança em direção a equipe! A antena afugentou o bicho assustado. A agressividade é um bom sinal: o tamanduá bandeira, que está ameaçado de extinção, já recuperou o instinto selvagem.

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